Grupo voluntário Monitora Chapada, organizado pelo biólogo Leonardo Fraga e colegas da UnB, atua há cinco anos na região

Registro de espécie atropelada na Chapada dos Veadeiros / crédito: @guiacerratense

A cada segundo, 15 animais silvestres morrem atropelados no Brasil, segundo estimativas do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade Federal de Lavras-MG. Anualmente, são vitimados nas rodovias do país 430 milhões de pequenos vertebrados, 43 milhões de animais de médio porte e dois milhões de vertebrados de grande porte, como onças, antas e lobos.

Esses números superlativos fazem dos atropelamentos o principal causador de morte de fauna no país, superando outros graves problemas, como caça ilegal, tráfico de animais e incêndios florestais. No Cerrado brasileiro, a ampliação da malha rodoviária e a redução/fragmentação dos habitats naturais ocorrem de maneira acelerada desde o final da década de 1980, gerando impactos consideráveis para a fauna silvestre.

A questão, contudo, não se restringe ao Brasil. Pelo menos desde a década de 1970, pesquisadores de todo o mundo se dedicam à análise dos impactos da malha viária sobre a vida selvagem. E foi da consolidação desses estudos que em 1998 surgiu o termo Ecologia de Estradas, cunhado pelo ecólogo Richard T. Turner Forman.

Foi o interesse por essa área de conhecimento que levou o biólogo Leonardo Pereira Fraga (093877/04-D) a uma especialização no Centro de Estudos do Cerrado da Chapada dos Veadeiros da Universidade de Brasília (UnB), em 2017. O ano coincidiu com o da assinatura de um decreto presidencial que ampliou a área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, de 65 mil para 240 mil hectares contínuos, uma notícia positiva mas que reforçou a necessidade de implementação de medidas protetivas das espécies que habitam a área do Parna, algumas delas ameaçadas, como lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla).

O objetivo de Leonardo foi exatamente avaliar aspectos ecológicos e espaciais relacionados com a fauna silvestre atropelada e propor soluções visando minimizar o problema. Os estudos do biólogo se concentraram em um trecho da rodovia BR-010 (que, no estado de Goiás, se sobrepõe à rodovia estadual GO-118), que corta a Área de Proteção Ambiental Pouso Alto, unidade de conservação que está inserida na área da Chapada dos Veadeiros.

De maio de 2017 a abril de 2018, Leonardo realizou um monitoramento mensal de um trecho de 34 quilômetros da BR-010, registrando 172 animais atropelados – 76 aves, 40 anfíbios, 38 mamíferos e 18 répteis –, entre eles 17 cachorros-do-campo (Cerdocyon thous) e um lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).

Biólogo Leonardo Fraga em trabalho com a equipe da UnB Cerrado / crédito: Reprodução/YouTube/Labnatu

Além da publicação do trabalho, os resultados da pesquisa e do envolvimento do biólogo com o tema geraram outros frutos. Leonardo atuou, junto com outros colegas, na criação de um grupo de monitoramento coletivo de atropelamento de fauna, o Monitora Chapada, que conta com professores, alunos e servidores da UnB e da UnB Cerrado, além de moradores de Alto Paraíso de Goiás, um dos principais municípios na região do parque. Há cinco anos o grupo atua de forma voluntária fazendo e coletando registros de atropelamentos nas estradas que cortam e margeiam o Parna, buscando a identificação – no menor nível taxonômico possível – dos indivíduos atropelados e promovendo campanhas educativas de conscientização.

“O projeto contribui para a visibilidade da problemática da fauna silvestre atropelada, um ‘mecanismo’ silencioso que pode contribuir para a extinção local de espécies. Os dados do projeto também podem auxiliar na elaboração de estratégias mais assertivas para a conservação da fauna”, explica Leonardo.

 

Amigos das Florestas

Em 2019, o trabalho do Monitora Chapada ganhou o apoio da ONG Associação dos Amigos das Florestas (AAF). Naquele ano, as entidades se uniram para promover a campanha "Eu desacelero na Chapada". “Foi a primeira campanha de esclarecimento voltada à comunidade de Alto Paraíso de Goiás quanto à problemática dos atropelamentos da fauna silvestre”, relata o biólogo.